Desligar música aqui

domingo, 23 de setembro de 2012

(Noite de natal) - O BEIJO METAFÍSICO - Elen de Moraes Kochman -





O BEIJO METAFISICO


Elen de Moraes Kochman



Tudo tem um preço, argumentava o poeta em seus devaneios, enquanto a tarde apressada escapulia por entre as árvores centenárias, cedendo espaço à noite que se atirava meio desajeitada sobre aquele silencioso recanto. Milhares de micro lâmpadas se acendiam e o brilho dourado de suas luzes dava às casas, aos seus jardins e à praça quase deserta àquela hora, os coloridos festivos e furta-cores dos enfeites natalinos. 

Atrelada à cauda da noite, uma densa neblina, que se transformaria em geada pela madrugada, estendia seu translúcido manto sobre a cidade e abraçava o poeta que, ensimesmado, permanecia naquele banco de jardim que tantas vezes lhe acolhera e emprestara espaço à sua inspiração.

Seus dedos hesitantes puxavam a gola do casaco para cobrir parte do seu rosto e levavam à boca, alternadamente, o cigarro e o whisky. Agarrou-se às recordações, como se elas pudessem aquecê-lo. Mentalmente rimava os pensamentos:


Se vais... deixa-me guiar-te.
Se ficas... parte comigo!
Quero vida para dar-te
Ou morte... pra ir contigo.

Seu melhor amigo partira sem se despedir. Cruzara, afoitamente, o portal que o separava da eternidade, deixando o poeta atônito e magoado por não ter lhe dado tempo para um último abraço, um beijo no rosto ou, quem sabe, um beijo na boca,  como os políticos russos costumavam trocar. Um beijo que devolvesse ao amigo a vida que lhe fugia e tirasse do poeta um tanto daquela falta de vontade de viver que o acompanhava como sombra maldita. Um beijo que exorcizasse o tempo e da vida fosse catarse.


O mais seria bem menos para aquela amizade que sempre os unira. Desde a infância viviam na mesma rua, estudaram nas mesmas escolas e torciam pelo mesmo time. Foram, um para o outro, o irmão que ambos não tiveram. O amigo, mais pés no chão, sabia o que queria da vida. O poeta era um sonhador, homem-sentimento, alma sedenta, com quereres independentes da sua vontade e dependentes dos seus momentos.


Compartilharam muitas emoções vida afora: a longa viagem até àquela cidade de romeiros; padrinhos de casamento, um do outro; apoiaram-se quando os filhos nasceram; a solidariedade do amigo quando a mulher colocara o poeta porta afora, por uma noite de sexo com uma amiga de faculdade; a companhia do poeta na convalescênça do amigo, quando suas coronárias exigiram uma intervenção cirúrgica; as incontáveis viagens com as famílias reunidas e as confidências sobre as muitas musas que o poeta tivera e as dezenas de mulheres por quem se apaixonara, sem ter amado nenhuma, sempre à espera da mulher especial que nunca conhecera.


Enrolou-se às imagens para aquentar-se. Buscava calor dentro do casaco. Melhor seria voltar para casa. Embora aquilo não fosse um lar, era o seu refúgio e dos seus fantasmas. Vivia sozinho. Agora que o amigo se fora, não mais teria um ombro para chorar seus infortúnios, nem a sua ruidosa companhia para movimentar seus dias. Mulher e filhos desistiram dele e não os culpava porque se sabia um homem difícil, irrequieto e insatisfeito. Entregara-se à bebida nos últimos anos não porque quisesse e sim pela falta de motivos para sua existência. Também para dar mais fluidez e leveza aos pensamentos.



Ajeitou-se no banco, esticou sobre si o casaco, enfiou-se entre os jornais e muito mais se cobriu com as imagens queridas, agasalhando-se com as dolorosas lembranças. Fixou-se na ideia do beijo, como se na sua essência a vida pudesse se recompor. – “Um esvoaçar em seus lábios” - murmurou antes de desistir.

***

A manhã acordou indecisa entre as brumas. Um mortiço raio de sol ilumina aquele rosto diáfano. Um ou outro transeunte se volta para olhar e o policial não permite que ninguém se aproxime.

Um homem, cabelos grisalhos, lisos, caindo sobre a testa, estranho aos frequentadores da praça, quer saber o que se passa. O policial sem dar-lhe muita atenção, procurando por documentos em cima e embaixo do banco, explica que é só mais um bêbado que parece ter morrido ao relento. O homem se identifica como médico e se dispõe a ajudar. Impaciente, o policial afasta a multidão que se aglomera, passa a fita de isolamento e, descrente, o observa debruçar-se sobre o corpo inerte, tomar entre suas mãos aquele rosto etéreo, enquanto tenta reanimá-lo com massagem torácica e ventilação boca a boca... O sonhado  beijo do poeta.


Alguns curiosos aplaudem. Os olhos azuis semicerrados, molhados pelo orvalho da noite, parecem sorrir.



Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...