Correr atrás do vento
Elen de Moraes
Tem dias que acordo com a estranha sensação de que não sou deste lugar. Sinto a casa vazia, sem vida, evidenciando objetos que me parecem tão fora do comum, que não os reconheço como meus. Os móveis se revelam gastos, sem brilho, as cortinas e estofados já não têm aquele cheiro característico de tecido novo - nem viço - e os tapetes dão idéia de ocupar espaços e não de enfeitar o ambiente ou amortizar ruídos.
Nesses dias a paisagem que há muitos anos vislumbro do meu terraço, não a distingo mais com a exuberância de antes e, para dizer a verdade, não sei se a vejo porque os meus olhos podem enxergar ou se porque é impossível não divisar os edifícios que brotam como ervas daninhas bem adubadas, entre os antigos e ensolarados casarões, agora sombrios e desbotados, que eu, romanticamente, tanto gostava de admirar. Até o ir e vir dos transeuntes, que me deixava curiosa tentando adivinhar seus pensamentos, dores e alegrias da alma, dá-me a impressão de pessoas apressadas que andam de lá para cá, sem que eu consiga entender se conversam consigo mesmas ou se seus lábios se movimentam em rituais silenciosos, em preces, ou se dizem impropérios contra as calçadas mal conservadas e as ruas mal iluminadas. Pior do que essa estranha sensação é a de me sentir invisível quando cumprimento alguém nos elevadores ou corredores do prédio onde moro. Respondem olhando o teto, o chão ou ajeitando-se ao espelho. Não se dão ao trabalho de se voltarem para ver com quem falam. Só as crianças, meio tímidas, fazem perguntas. Há exceções, bom lembrar. Os porteiros e empregados, geralmente, sorriem com gentileza quando entro ou saio, mas sinto que não me vêem. Também não sei se os vejo, pois jamais sei se são novos ou antigos no emprego, posto que não consigo identificar o que os diferenciam, uma vez que todos têm o mesmo olhar entristecido e a velha desilusão no rosto marcado pelo cansaço. Ponho-me a pensar por que tudo isso me causa desgosto se antes não me sentia assim e por que só agora o tempo se detém nos detalhes que eu não percebia. Por que, de repente, a vida perde o sentido da graça, dando-me a impressão de que tudo se repete com as horas, os dias e os anos. Pergunto-me em quais momentos me perdi de mim ou será que são nesses estranhos e amiúdes momentos que me encontro? Descartada a hipótese de alguma patologia, sobra certeza do vazio existencial, da intolerável rotina, a convicção de que mais da metade da vida é passado e que futuro é só uma esperança, sobra a segurança plena que isto é envelhecer, ou seja, esse sentir-se estranho na própria casa e transparente para a família, vizinhos e muitos que se dizem amigos, como se fizéssemos parte da mesma paisagem observada dia após dia. Dizem que envelhecer é isso e que é melancólico porque, aos poucos, nos transformamos em alguém que muitos olham sem ver, que ouvem sem escutar, com quem conversam sem dialogar, que questionam sem querer respostas. Envelhecer, então, é aceitar a rotina do tempo, o que os outros nos impõem, além do que já nos impõe a vida? E os sonhos que ainda sonhamos, onde os colocamos? Enterramos com os anos e as ilusões que se foram? Ninguém deseja ser aquele “móvel velho” que é deixado para trás, colocado na porta como lixo, quando a família vai para novo endereço. Tampouco a “antiguidade” que é tratada com cuidado só pelo seu valor comercial. Figura de retórica à parte, importante é reagir, mudar, recomeçar! E não permitir, jamais, ser tratado como objeto fora de uso. “O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos”, diz Airton Luiz Mendonça e continua: “se repetirmos algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida”. Se ao envelhecermos a vida se transforma numa rotina sem fim, e perde a graça e os dias parecem menores, o segredo está em vivenciarmos coisas novas, aquelas que a mente vai parar e pensar. Os dias nos parecerão mais longos e cheios de novidades, a vida mais colorida e movimentada. Salomão, do alto da sua notável sabedoria, explica esses questionamentos. Em seus livros de Provérbios e Eclesiastes, fala sobre a nossa finitude e sobre o tempo de todas as coisas: nascer, morrer, rir, chorar, plantar, colher, etc., e mesmo quando afirma que tudo na vida é vaidade, é correr atrás do vento, ele nos ensina e encoraja a aproveitar as coisas boas que ela nos oferece sem, entretanto, esquecermos a transitoriedade das mesmas. |
"Somethings in the rain" - playlist da série
quinta-feira, 30 de junho de 2011
CORRER ATRÁS DO VENTO - Elen de Moraes Kochman
sábado, 25 de junho de 2011
PARTIR (tributo a Michael Jackson) - de Elen de Moraes Kochman
PARTIR...
(Pântano do tempo)
Elen de Moraes Kochman
Partir...
Romper amarras
Em busca
de horizontes impensados,
Perseguir ilusões temerárias,
Viajar pelos
sonhos postergados
Das terras do nunca...
Imaginárias!
Partir...
Libertar-se dos grilhões,
Dos fantasmas...
Dos medos passados!
Sondar, dos mistérios, os calabouços,
Vaguear por
lugares encantados,
Esquadrinhar, de outras esferas, os
arcabouços.
Partir...
Vestir-se de escolhas,
Abrir par em par, da
alma, as escotilhas,
Com destemor pelo desconhecido.
Navegar, peito
aberto, sulcando armadilhas.
Jogar no esquecimento o que foi
preterido.
Partir...
Despir-se de controles,
Descerrar um a um, do
futuro,
Os finos véus que encobriam esperanças.
Trazer à luz o que estava
obscuro...
Desvencilhar-se de tantas cobranças!
Partir...
Adormecer
com a verdade
E acordar nos labirintos da certeza...
Cingir-se com o manto
da liberdade,
Dar novas cores, fantasia e beleza
Ao embrulho da áspera
realidade.
Partir...
Palmilhar estradas,
Encharcar os pés no
pântano do tempo.
Tempo apressado que o presente invade,
Tempo liberto de
todo sofrimento!
Tempo que se dilui... no rasto da saudade...
Tributo à Michael Jackson
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2009
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quinta-feira, 23 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
ASI FUÉ - Isabel Pantoja
ASÍ FUE
Isabel Pantoja Perdona si te hago llorar Perdona si te hago sufrir Pero es que no esta en mis manos Pero es que no esta en mis manos,
me he enamorado,
Me he enamorado,
me enamore.
Perdona si te causo dolor Perdona si hoy te digo adiós Como decirle que te amo Como decirle que te amo Si el me ha preguntado,
le dicho que no,
Le dicho que no. Soy honesta con el y contigo A el lo quiero y a ti te he olvidado Si Tu quieres seremos amigos Yo te ayudo a olvidar el pasado. No te aferres, Ya no te aferres, a un imposible Ya no te hagas,
ni me hagas mas daño.
Tu bien sabes que no fue mi culpa Tu te fuiste sin decirme nada Y a pesar que llore como nunca Yo seguía de ti enamorada. Pero te fuiste Y que regresabas,no me dijiste Y sin mas nada por qué? No se Pero fue así,así fue. Te brinde la mejor de las suertes Me propuse no hablarte ni verte Y hoy que has vuelto ya ves,solo hay nada Ya no puedo ni debo quererte. Ya no te amo Me ha enamorado,de un ser divino De un buen amor Que me enseno a olvidar y a perdonar |
terça-feira, 21 de junho de 2011
VERSOS EM BRASAS - Elen de Moraes Kochman
Versos em Brasas
Elen de Moraes Kochman
Devolvo-te agora as cartas que me mandaste. Belas palavras, que muita emoção me deram. Tão múltiplas esperanças elas trouxeram Nas falsas promessas, com as quais tu me enganaste. Mando-te as rosas vermelhas, secas... Contraste Entre a paixão e as mentiras que compuseram Os teus reais sentimentos. Elas fizeram Diferença em meio às juras... às quais me ataste. Porém, quero de volta meus dias passados Em teus braços... fazendo amor, furtivamente... Os beijos que te dei... e os que foram roubados! Só não devolvo teus versos... infelizmente! Pelas ondas, com as areias, foram levados... Se bem que vivem em brasas na minha mente! |
domingo, 19 de junho de 2011
A TUA SINA - Elen de Moraes Kochman
A tua sina
Elen de Moraes Kochman
Teu canto... que atravessa a madrugada,
É triste, por estar tão longe dela. Mas, de piegas, decerto não tem nada, Pois mostrar amor... é a expressão mais bela!
Tu ris... e o riso é de felicidade
Pelo teu coração apaixonado! Tua ilusão é a tua liberdade Pra ostentares teu Ser iluminado...
As notas do poema no teu rosto
São os traços da tua alma inspirada... E mesmo que te venha um sol posto, O amor há de clarear a tua estrada.
Se o riso da paixão te ilumina,
Não é o riso e, sim, o amor, a tua sina! |
sábado, 4 de junho de 2011
Poema 18 de Pablo Neruda - Declamado
Aquí te amo.
Pablo Neruda
Aqui te amo.
En los oscuros pinos se desenreda el viento.
Fosforece la luna sobre las aguas errantes. Andan días iguales persiguiéndose. Se desciñe la niebla en danzantes figuras. Una gaviota de plata se descuelga del ocaso. A veces una vela. Altas, altas estrellas. O la cruz negra de un barco. Solo. A veces amanezco, y hasta mi alma esta húmeda. Suena, resuena el mar lejano. Éste es un puerto. Aquí te amo. Aquí te amo y en vano te oculta el horizonte. Te estoy amando aún entre estas frías cosas. A veces van mis besos en esos barcos graves, que corren por el mar hacia donde no llegan. Ya me veo olvidado como estas viejas anclas. Son más tristes los muelles cuando atraca la tarde. Se fatiga mi vida inútilmente hambrienta. Amo lo que no tengo. Estás tú tan distante. Mi hastío forcejea con los lentos crepúsculos. Pero la noche llega y comienza a cantarme. La luna hace girar su rodaje de sueño. Me miran con tus ojos las estrellas más grandes. Y como yo te amo, los pinos en el viento, quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre. |
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