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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SOLIDÃO - Uma questão de escolha? - Elen de Moraes Kochman




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Solidão, uma questão de escolha?

Elen de Moraes Kochman

Lá fora brilha um sol de meio dia, sobre um céu de janeiro infinitamente azul. Através da vidraça do meu quarto vejo o asfalto da minha rua que parece ferver sob o calor de 41 graus, com sensação térmica de 50º. O ar condicionado, ligado a todo vapor, não consegue refrescar o ambiente, quanto mais gelar, se essa era a intenção quando foi instalado. Talvez deva trocá-lo por um mais moderno, potente, já que a temperatura da terra está subindo a cada verão.

Gotas de suor molham meus cabelos e escorrem pelo pescoço. Ligo o ventilador de teto e quase entro em desespero, porque mesmo com os dois aparelhos ligados, o calor é sufocante. A temperatura do ambiente, cada vez mais quente e úmida, me faz lembrar as brotoejas – Deus que delas me defenda - que aparecem quando os poros ficam bloqueados e não permitem a livre transpiração, facilitando o aparecimento dessas bolhas minúsculas que ardem como pimenta em língua sensível.

Como cultivar e mergulhar na minha solidão, prantear um amor fracassado, molhar com lágrimas de saudade aquela fotografia de um ente querido que já fez sua passagem, como chorar a ausência dos filhos distantes que sequer telefonam para dar notícias, como brigar com o espelho pelo prematuro envelhecimento, diante dessa quentura que parece me abraçar com suas labaredas? No verão, quando parecemos fugitivos do inferno, como permitir que a solidão me possua, que a tristeza me invada, que minha alma se aninhe em abandono e os olhos se inundem de águas sentidas, se o que agora me sufoca dói mais na pele do que o que me fere o coração?

E lá vou eu de roupa de banho, chapéu na cabeça, procurar um cantinho naquela praia superlotada. Talvez fosse mais saudável a piscina de um clube, mas prefiro o mar e a conversa eclética que rola entre o povo que ama a vida ao ar livre e crianças correndo, jogando areia molhada para todos os lados. Onde está a felicidade? Está aqui, neste “marzão” de águas esverdeadas; nesta praia de corpos sarados (e outros nem tanto); no abraço dos jovens bronzeados e seminus; nos turistas de roupas coloridas e pele vermelha do sol, que sorriem deslumbrados todo o tempo, quando não estão preocupados com seus pertences, para não serem roubados; no sorriso dos “coroas” e suas jovens paqueras; das avós e seus comentários sobre as gracinhas dos netos, enfim, a felicidade está aqui, nesta vida que ferve.  

Possivelmente sejam esses os motivos das cidades praianas e tropicais constarem sempre das estatísticas como as mais alegres e de abrigarem um povo pra lá de simpático.  Pois como chorar um amor que acabou, uma mágoa que doeu, com este sol me cascando a pele e esse mar me convidando para um mergulho?  Como me desabar de infelicidade, se à minha frente sorrisos encantadores me dão boas-vindas? Não há solidão que insista ou resista!

Porém há o outro lado: os que vivem na parte de cima da linha do equador, que enfrentam um inverno rigoroso, de paisagens brancas, cobertas pela neve e não podem, muitas vezes, sair de casa. Ou sem neve, mas com frio de gelar os ossos. Nesse caso, quem vive sozinho não tem como escapar da solidão, mas pode reverter tal situação e usá-la como ótima companhia. Pense: o céu é sempre comparado a uma imensidão branca, não para mostrar ser um lugar de abandono, de depressão e sim, um lugar de paz.

Há gente que ama estar sozinha, o que é bem saudável, porque doente é se sentir só, estando acompanhada. É o que chamam solidão da alma. Gostoso mesmo é tomar um vinho em frente a uma lareira acesa, fartando-se de boas lembranças, de preferência olhando a neve, ouvindo boa música, sem que alguém interrompa o fluxo das memórias, sem gente falando sem parar, como se temesse o silêncio.

Então a solidão é uma questão de escolha? De olhar a neve ou os ferventes caldeirões solares? Claro que não! Solidão é aquela gostosa companhia, o nosso Eu solitário, que chamamos para preencher nossos espaços vazios, quando estamos a sós.

Outro tipo de solidão somente os terapeutas estão aptos a argumentarem. 




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