"Somethings in the rain" - playlist da série
domingo, 29 de abril de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
AMIGO VERDADEIRO - Elen de Moraes Kochman
Amigo verdadeiro
Elen de Moraes Kochman
O melhor e fiel amigo
é sempre um grande aliado. Ao vislumbrar um abismo, um iminente perigo,
fica sempre do teu lado...
e sem qualquer egoísmo,
oferece seu abrigo
quando te vê acuado, nas garras do pessimismo.
Um amigo verdadeiro
é o que contigo prossegue
numa íngreme subida,
como fiel escudeiro.
Assim, por isso, consegue
amparar-te nessa ida,
segurar-te o tempo inteiro...
Ao te pressentir entregue,
anima-te e dá guarida.
Um verdadeiro amigo,
- mesmo só em pensamento -
estará sempre contigo.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
OUTONO - estação do amor - Elen de Moraes Kochman
Outono no Rio de Janeiro
Publicado no jornal
www.tribunaportuguesa.com
Publicado no jornal
www.tribunaportuguesa.com
P
em 1º/06/2010
Outono, estação do amor.
Elen de Moraes Kochman
A lua ainda brilha quando um tímido sol mostra-se através dos seus primeiros raios, dando esmaecidas tonalidades rosa e laranja aos tufos de nuvens, cedendo colorido ímpar ao manto negro da noite que se rende à beleza e empresta espaço à exuberância dos matizes outonais do amanhecer.
A cidade desperta sem pressa e se espreguiça sobre o mar. Os gritos abafados das gaivotas, como se tivessem pena de acordar o dia, nos seus vôos lânguidos e rasantes sobre as águas cor de esmeralda que, aos poucos, se cobrem com nuances douradas e o som das ondas lambendo, luxuriosas, as brancas areias no seu ritmado vai-vem, orquestram uma perfeita sinfonia.
Do mar, a brisa sopra fria, ondula os coqueirais e se enrosca nas pequenas árvores, despindo-as com leveza e graça, deixando-as despudoradamente nuas, num ritual de paixão e prazer. Os cheiros cítricos que invadem o ar, aspergem pelas ruas um perfume gostoso, um rastro de vida que dá um toque extasiante de boas-vindas ao recomeço.
Cores amarelas, vermelhas e douradas tonalizam a esperança; sons embalam e cadenciam a alegria de existir; notas musicais produzidas pelas batidas do coração, em unissonância com os acordes do universo, entoam um novo tempo; fragrâncias de terra molhada, no cio, que recebe em seu ventre novas sementes, novas vidas, dão o toque de abril.
Nos trópicos o outono é belíssimo: o céu mais azul, os dias mais claros e ensolarados e as temperaturas amenas convidam a passeios, abraços e união de corpos. As noites, mais aconchegantes e românticas, estimulam confidências e entregas. Não sei se o que vejo, enxergo com os olhos da paixão, da admiração que cultivo pelo meu Rio de Janeiro ou se os filtros, através dos quais vejo amor e encantamento num singular amanhecer outonal, precisam ser substituídos.
Todavia, acredito que a beleza natural que veste a nossa cidade não poderia ter um outono qualquer, só com árvores desfolhadas, uma época simplesmente de espera por dias mais viçosos, sem mistérios e sem poesias. Tinha que ser como acontece: o clímax da natureza rompendo um novo tempo, tingindo de ouro as águas da Lagoa, das praias e da baia, colorindo nossas águas interiores. Um tempo de reencontros, de renovação, de perdão para renascer, de dispor novas sementes no solo da nossa compreensão (e aceitação pelo inevitável), de colher os frutos que se plantou. Outono, estação do amor!
Há quem o compare com o “principio do fim” da vida, a antecâmara da velhice, a tristeza ligada à morte. Talvez, pelas folhas secas, sem brilho, espalhadas pelo chão, largadas ao vento. Penso que depende de como cada um modera a luz e protege as lentes, através das quais capta e absorve o belo ou o feio, a alegria ou a tristeza, a intensidade ou o efêmero desses dias, de todos os dias e estações.
Quando eu era mais jovem, quando meus olhos só viam o necessário, o que se mostrava em primeiro plano, quando o meu coração reclamava sem conferir e a minha alma sentia sem entender, eu mesma não conseguia enxergar, no outono, a estação do amor e, sim, uma sucessão de dias insossos, um desfilar de rostos inexpressivos, uma procissão de acabrunhadas gentes. Uma estação de saudades antecipadas.
Hoje faço coro com o poeta Vinicius de Moraes, em seu poema “As cores de abril”, quando ele afirma: “vai e canta, meu irmão/ ser feliz é viver morto de paixão”.
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sexta-feira, 13 de abril de 2012
Palavras e arremedos - Elen de Moraes Kochman
Palavras e arremedos
Elen de Moraes Kochman
Palavras! Não só palavras se o coração
Deixar transparente o que lhe vai às entranhas;
Se não se esconder, nem se valer de artimanhas
Para, do sentimento, abafar a emoção.
Palavras! Não só letras soltas no papel
Formando frases... versos com duplo sentido...
E, sim, pureza do desejo reprimido,
As cores da alma a eternizar a pincel!
Palavras! Não só com intenção conveniente,
Pra camuflar o que se precisa esconder;
Pra atrair amores... depois se escafeder!
Porém, a expressa e total verdade da mente.
Palavras! Não só as que "pensamos" com os dedos,
Mas, as que não fazem do que diz, arremedos!
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terça-feira, 10 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
SELEÇÃO DE BELAS POESIAS DE OLAVO BILAC
Ouvir estrelas
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora: "Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?" E eu vos direi: "Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas."
Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura, Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, Em que da voz materna ouvi: "meu filho!" E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Tercetos Noite ainda, quando ela me pedia Entre dois beijos que me fosse embora, Eu, com os olhos em lágrimas, dizia: "Espera ao menos que desponte a aurora! Tua alcova é cheirosa como um ninho... E olha que escuridão há lá por fora! Como queres que eu vá, triste e sozinho, Casando a treva e o frio de meu peito Ao frio e à treva que há pelo caminho?! Ouves? é o vento! é um temporal desfeito! Não me arrojes à chuva e à tempestade! Não me exiles do vale do teu leito! Morrerei de aflição e de saudade... Espera! até que o dia resplandeça, Aquece-me com a tua mocidade! Sobre o teu colo deixa-me a cabeça Repousar, como há pouco repousava... Espera um pouco! deixa que amanheça!" E ela abria-me os braços. E eu ficava. "Sofro... Vejo envasado em desespero e lama Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa; Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa; Que fazer, para ser como os felizes?" - Ama! "Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama; Calcinou-me a irrisão na destruidora chama; Padeço! Que fazer, para ser bom?" - Perdoa! "Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece, Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria; Desvairo! Que fazer, para o consolo?" - Esquece! "Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre: Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria... Odeio! Que fazer, para a vingança?" - Morre! O Sonho Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade Solto para onde estás, e fico de ti perto! Como, depois do sonho, é triste a realidade! Como tudo, sem ti, fica depois deserto! Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça. Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma: De cada estrela de ouro um anjo se debruça, E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma. Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado. Em torno a cada ninho anda bailando uma asa. E, como sobre um leito um alvo cortinado, Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa. Porém, subitamente, um relâmpago corta Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta E, sorrindo, serena, apareces à porta, Como numa moldura a imagem de uma Santa...
Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando. Cismo e padeço, neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera... Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice, Mártir da hipocrisia ou da virtude,
Os beijos que não
tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude, E por pudor os versos que não disse! Ao coração que sofre, separado Do teu, no exílio em que a chorar me vejo, Não basta o afeto simples e sagrado Com que das desventuras me protejo.
Não me basta
saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo Ter nos braços teu corpo delicado, Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições
que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza, Ficar na terra e humanamente amar.
Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve? - Ardes, sangras, pregada à tua cruz e, em breve, Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...
O Pensamento
ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve... E a Palavra pesada, abafa a Ideia leve, Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas? E as confissões de amor que morrem na garganta?
Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento, contigo à luz subi do firmamento, contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, e do teu gosto amargo me alimento, e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante, na perpétua saudade de um minuto... Só Este que um Deus cruel arremessou à vida Marcando com um sinal da sua maldição Este que desabrochou com uma erva má Nascida apenas para os pés ser calcada no chão. De motejo em motejo arrasta a alma ferida Sem constância no amor dentro do coração, Sente, crespa crescer a selva retorcida Dos pensamentos maus, filhos da solidão. Longos dias sem sol. Noites de eterno luto. Alma cega, perdida à-toa no caminho, Roto casco de nau desprezado no mar E árvore acabará sem nunca dar um fruto. E homem há de morrer como viveu: Sozinho, sem ar, sem luz, sem Deus Sem fé, sem pão, sem lar. Remorso Às vezes, uma dor me desespera... Nestas ânsias e dúvidas em que ando. Cismo e padeço, neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera. Versos e amores sufoquei calando, Sem os gozar numa explosão sincera... Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera Mais viver, mais penar e amar cantando! Sinto o que desperdicei na juventude; Choro, neste começo de velhice, Mártir da hipocrisia ou da virtude, Os beijos que não tive por tolice, Por timidez o que sofrer não pude, E por pudor os versos que não disse! New York Resplandeces e ris, ardes e tumultuas; Na escalada do céu, galgando em fúria o espaço, Sobem do teu tear de praças e de ruas Atlas de ferro, Anteus de pedra e Brontes de aço. Gloriosa! Prometeu revive em teu regaço, Delira no teu gênio, enche as artérias tuas, E combure-te a entranha arfante de cansaço, Na incessante criação de assombros em que estuas. Mas, como as tuas Babéis, debalde o céu recortas, E pesas sobre o mar, quando o teu vulto assoma, Como a recordação da Tebas de cem portas: Falta-te o Tempo, - o vago, o religioso aroma Que se respira no ar de Lutécia e de Roma, Sempre moço perfume ancião de idades mortas... As Ondas Entre as trêmulas mornas ardentias, A noite no alto-mar anima as ondas. Sobem das fundas úmidas Golcondas, Pérolas vivas, as nereidas frias: Entrelaçam-se, correm fugidias, Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas, Vestem as formas alvas e redondas De algas roxas e glaucas pedrarias. Coxas de vago ônix, ventres polidos De alabastro, quadris de argêntea espuma, Seios de dúbia opala ardem na treva; E bocas verdes, cheias de gemidos, Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma, Soluçam beijos vãos que o vento leva... Música Brasileira Tens, às vezes, o fogo soberano Do amor: encerras na cadência, acesa Em requebros e encantos de impureza, Todo o feitiço do pecado humano. Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza Dos desertos, das matas e do oceano: Bárbara poracé, banzo africano, E soluços de trova portuguesa. És samba e jongo, xiba e fado, cujos Acordes são desejos e orfandades De selvagens, cativos e marujos: E em nostalgias e paixões consistes, Lasciva dor, beijo de três saudades, Flor amorosa de três raças tristes. Vila Rica O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre; Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição Na torturada entranha abriu da terra nobre: E cada cicatriz brilha como um brasão. O ângelus plange ao longe em doloroso dobre, O último ouro de sol morre na cerração. E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre, O crepúsculo cai como uma extrema-unção. Agora, para além do cerro, o céu parece Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu... A neblina, roçando o chão, cicia, em prece, Como uma procissão espectral que se move... Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu... Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove. Quarenta Anos Sim! como um dia de verão, de acesa Luz, de acesos e cálidos fulgores, Como os sorrisos da estação das flores, Foi passando também tua beleza. Hoje, das garras da descrença presa, Perdes as ilusões. Vão-se-te as cores Da face. E entram-te n'alma os dissabores, Nublam-te o olhar as sombras da tristeza. Expira a primavera, O sol fulgura Com o brilho extremo. . . E aí vêm as noites frias, Aí vem o inverno da velhice escura... Ah! pudesse eu fazer, novo Ezequias, Que o sol poente dessa formosura Volvesse à aurora dos primeiros dias!
Primavera
Ah! quem nos dera que isso, como outrora, inda nos comovesse! Ah! quem nos dera que inda juntos pudéssemos agora ver o desabrochar da primavera! Saíamos com os pássaros e a aurora, e, no chão, sobre os troncos cheios de hera, sentavas-te sorrindo, de hora em hora: "Beijemo-nos! amemo-nos! espera!" E esse corpo de rosa recendia, e aos meus beijos de fogo palpitava, alquebrado de amor e de cansaço... A alma da terra gorjeava e ria... Nascia a primavera...E eu te levava, primavera de carne, pelo braço!
Jardins Proibidos
Quando amanheces, logo no ar, Se agita a luz sem querer, E mesmo o dia, vem devagar, Para te ver. E já rendido, ver-te chegar, Desse outro mundo só teu, Onde eu queria, entrar um dia, P'ra me perder. P'ra me perder, nesses recantos Onde tu andas, sozinha sem mim, Ardo em ciúme, desse jardim, Onde só vai quem tu quiseres, Onde és senhora do tempo sem fim, Por minha cruz, jóia de luz, Entre as mulheres. Quebra-se o tempo, em teu olhar, Nesse gesto sem pudor, Rasga-se o céu, e lá vou eu, P'ra me perder. P'ra me perder, nesses recantos Onde tu andas, sozinha sem mim, Ardo em ciúme, desse jardim, Onde só vai quem tu quiseres, Onde és senhora do tempo sem fim, Por minha cruz, jóia de luz P'ra me perder, nesses recantos Onde tu andas, sozinha sem mim, Ardo em ciúme, desse jardim, Onde só vai quem tu quiseres, Onde és senhora do tempo sem fim, Por minha cruz, jóia de luz Entre as mulheres. Sonhei que me esperavas. E, sonhando, Saí, ansioso por te ver: corria... E tudo, ao ver-me tão depressa andando, Soube logo o lugar para onde eu ia. E tudo me falou, tudo! Escutando Meus passos, através da ramaria, Dos despertados pássaros o bando: "Vai mais depressa! Parabéns!" dizia. Disse o luar: "Espera! que eu te sigo: Quero também beijar as faces dela!" E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!" E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela: "Como és feliz! como és feliz, amigo, Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!" Inda hoje, o livro do passado abrindo, Lembro-as e punge-me a lembrança delas; Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo, Estas cantando, soluçando aquelas. Umas, de meigo olhar piedoso e lindo, Sob as rosas de neve das capelas; Outras, de lábios de coral, sorrindo, Desnudo o seio, lúbricas e belas... Todas, formosas como tu, chegaram, Partiram... e, ao partir, dentro em meu seio Todo o veneno da paixão deixaram. Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto, Nem teve olhar como esse olhar, tão cheio De luz tão viva, que abrasasse tanto.
Pinta-me a curva destes céus ...
Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma: Pinta as nuvens de fogo de uma em uma, E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora. Solta, ondulando, os véus de espessa bruma, E o vale pinta, e, pelo vale em fora, A correnteza túrbida e sonora Do Paraíba, em torvelins de espuma. Pinta; mas vê de que maneira pintas ... Antes busques as cores da tristeza, Poupando o escrínio das alegres tintas: - Tristeza sir-gular, estranha mágoa De que vejo coberta a natureza, Porque a vejo com os olhos rasos d'água ... Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes se mostrasse? Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo. Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo... Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso.
Velha Página
Chove. Que mágoa lá fora! Que mágoa! Embruscam-se os ares Sobre este rio que chora Velhos e eternos pesares. E sinto o que a terra sente E a tristeza que diviso, Eu, de teus olhos ausente, Ausente de teu sorriso... As asas loucas abrindo, Meus versos, num longo anseio, Morrerão, sem que, sorrindo, Possa acolhê-los teu seio! Ah! quem mandou que fizesses Minh'alma da tua escrava, E ouvisses as minhas preces, Chorando como eu chorava? Por que é que um dia me ouviste, Tão pálida e alvoroçada, E, como quem ama, triste, Como quem ama, calada? Tu tens um nome celeste... Quem é do céu é sensível! Por que é que me não disseste Toda a verdade terrível? Por que, fugindo impiedosa, Desertas o nosso ninho? - Era tão bela esta rosa!... Já me tardava este espinho! Fora melhor, porventura, Ficar no antigo degredo Que conhecer a ventura Para perdê-la tão cedo! Por que me ouviste, enxugando O pranto das minhas faces? Viste que eu vinha chorando... Antes assim me deixasses! Antes! Menor me seria O sofrimento, querida! Antes! a mão que alivia A dor, e cura a ferida, Não deve depois, tranqüila, Vendo sufocada a mágoa, Encher de sangue a pupila Que já vira cheia de água... Mas junto a mim que te falta? Que glória maior te chama? Não sei de glória mais alta Do que a glória de quem ama! Talvez te chame a riqueza... Despreza-a, beija-me, e fica! Verás que assim, com certeza, Não há quem seja mais rica! Como é que quebras os laços Com que prendi o universo, Entre os nossos quatro braços, Na jaula azul do meu verso? Como hei de eu, de hoje em diante, Viver, depois que partires? Como queres tu que eu cante No dia em que não me ouvires? Tem pena de mim! tem pena De alma tão fraca! Como há de Minh'alma, que é tão pequena, Poder com tanta saudade?! |
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Por ti e por mim - Morte e Ressurreição de Jesus Cristo - Elen de Moraes
Por ti e por mim
Morte e Ressurreição de
Jesus Cristo Elen de Moraes Kochman Porque Deus nos amou tão infinitamente, Que o Seu unigênito Filho ofereceu Pra salvar quem Nele cresse! E Cristo morreu Para que tivéssemos vida eternamente. Levou coroa de espinho em silêncio ingente. Carregou a cruz. Cálice amargo sorveu! No calvário, entre ladrões, Seu sangue verteu Diante do povo que blasfemava inclemente. Suportou pés e mãos cravados no madeiro; Lança a rasgar-Lhe a carne... vinagre ingeriu; Arrastado foi à morte... como um cordeiro! “Tudo consumado está!”- Jesus proferiu. Morreu! Assim nos libertou do cativeiro! Mas ressurgiu em glória! E para o Pai subiu! |
terça-feira, 3 de abril de 2012
MUDEZ - Miguel Torga
MUDEZ
Miguel Torga Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra,
Síntese ou imagem!
Desço dentro de mim,
Olho a paisagem,
Analiso o que sou,
Penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!
Sempre a mesma vontade de gritar,
Embora de antemão
A duvidar
Da exactidão e força desse grito.
Mudo, mesmo se falo,
E mudo ainda
Na voz dos outros,
Todo eu me afogo
Neste mar de silêncio,
Íntima noite
Sem madrugada.
Silêncio de criança que ficasse
Toda a vida criança,
E nunca conseguisse semelhança
Entre o pavor e o pranto que chorasse. |
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