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terça-feira, 3 de abril de 2012

MUDEZ - Miguel Torga







MUDEZ

Miguel Torga

Que desgraça, meu Deus!
Tenho a Ilíada aberta à minha frente,
Tenho a memória cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
À procura não sei
De que palavra,
Síntese ou imagem!

Desço dentro de mim,
Olho a paisagem,
Analiso o que sou,
Penso o que vejo,
E sempre o mesmo trágico desejo
De dar outra expressão ao que foi dito!

Sempre a mesma vontade de gritar,
Embora de antemão
A duvidar
Da exactidão e força desse grito.

Mudo, mesmo se falo,
E mudo ainda
Na voz dos outros,
Todo eu me afogo
Neste mar de silêncio,
Íntima noite
Sem madrugada.

Silêncio de criança que ficasse
Toda a vida criança,
E nunca conseguisse semelhança 
Entre o pavor e o pranto que chorasse.




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