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quarta-feira, 18 de abril de 2012

OUTONO - estação do amor - Elen de Moraes Kochman



Outono no Rio de Janeiro

Publicado no jornal
www.tribunaportuguesa.com
P

em 1º/06/2010


Outono, estação do amor.

Elen de Moraes Kochman

A lua ainda brilha quando um tímido sol mostra-se através dos seus primeiros raios, dando esmaecidas tonalidades rosa e laranja aos tufos de nuvens, cedendo  colorido ímpar ao manto negro da noite que se rende à beleza e empresta espaço à exuberância dos matizes outonais do amanhecer.

A cidade desperta sem pressa e se espreguiça sobre o mar. Os gritos abafados das gaivotas, como se tivessem pena de acordar o dia, nos seus vôos lânguidos e rasantes sobre as águas cor de esmeralda que, aos poucos, se cobrem com nuances douradas e o som das ondas lambendo, luxuriosas, as brancas areias no seu ritmado vai-vem, orquestram uma perfeita sinfonia.

Do mar, a brisa sopra fria, ondula os coqueirais e se enrosca nas pequenas árvores, despindo-as com leveza e graça, deixando-as despudoradamente nuas, num ritual de paixão e prazer. Os cheiros cítricos que invadem o ar, aspergem pelas ruas um perfume gostoso, um rastro de vida que dá um toque extasiante de boas-vindas ao recomeço.

Cores amarelas, vermelhas e douradas tonalizam a esperança; sons embalam e cadenciam a alegria de existir; notas musicais produzidas pelas batidas do coração, em unissonância com os acordes do universo, entoam um novo tempo; fragrâncias de terra molhada, no cio, que recebe em seu ventre novas sementes, novas vidas, dão o toque de abril.

Nos trópicos o outono é belíssimo: o céu mais azul, os dias mais claros e ensolarados e as temperaturas amenas convidam a passeios, abraços e união de corpos. As noites, mais aconchegantes e românticas, estimulam confidências e entregas. Não sei se o que vejo, enxergo com os olhos da paixão, da admiração que cultivo pelo meu Rio de Janeiro ou se os filtros, através dos quais vejo amor e encantamento num singular amanhecer outonal, precisam ser substituídos. 

Todavia, acredito que a beleza natural que veste a nossa cidade não poderia ter um outono qualquer, só com árvores desfolhadas, uma época simplesmente de espera por dias mais viçosos, sem mistérios e sem poesias. Tinha que ser como acontece: o clímax da natureza rompendo um novo tempo, tingindo de ouro as águas da Lagoa, das praias e da baia, colorindo nossas águas interiores. Um tempo de reencontros, de renovação, de perdão para renascer, de dispor novas sementes no solo da nossa compreensão (e aceitação pelo inevitável), de colher os frutos que se plantou. Outono, estação do amor!

Há quem o compare com o “principio do fim” da vida, a antecâmara da velhice, a tristeza ligada à morte. Talvez, pelas folhas secas, sem brilho, espalhadas pelo chão, largadas ao vento. Penso que depende de como cada um modera a luz e protege as lentes, através das quais capta e absorve o belo ou o feio, a alegria ou a tristeza, a intensidade ou o efêmero desses dias, de todos os dias e estações.

Quando eu era mais jovem, quando meus olhos só viam o necessário, o que se mostrava em primeiro plano, quando o meu coração reclamava sem conferir e a minha alma sentia sem entender, eu mesma não conseguia enxergar, no outono, a estação do amor e, sim, uma sucessão de dias insossos, um desfilar de rostos inexpressivos, uma procissão de acabrunhadas gentes. Uma estação de saudades antecipadas.

Hoje faço coro com o poeta Vinicius de Moraes, em seu poema “As cores de abril”, quando ele afirma: “vai e canta, meu irmão/ ser feliz é viver morto de paixão”. 
 
P

Um comentário:

Reinadi Sampaio disse...

Gosto do teu texto, Outono sempre foi uma estação que muito gostei, desde criança, quando ainda não tinha noção das coisas, e já adolescente, lá no meu Sertão, guardo na memória um céu de cor diferente, não que eu soubesse ser outono, lá não existia isso: outono! Sabíamos das trovoadas, dos relâmpagos, das secas que quando aconteciam acabavam com tudo. Mas o céu realmente era lindo cheio de nuvens pequeninas e não tinha aquele sol castigante.

Beijo minha amiga
(bateu uma saudade de lá...)
Flor.

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