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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre o Rio de Janeiro - RETRATO DE UMA CIDADE - Carlos Drumond de Andrade -





 I


Tem nome de rio esta cidade
onde brincam os rios 

de esconder.
Cidade feita de montanha
em casamento indissolúvel
com o mar.
Aqui amanhece
como em qualquer parte 

do mundo, mas vibra 
o sentimento de que as coisas 
se amaram durante a noite.
As coisas se amaram.
E despertam mais jovens,
com apetite de viver
os jogos de luz na espuma,
o topázio do sol na folhagem,
a irisação da hora na areia desdobrada 

até o limite do olhar.
Formas adolescentes 

ou maduras recortam-se 
em escultura de água borrifada.
Um riso claro, que vem de antes da Grécia (vem do instinto)
coroa a sarabanda a beira-mar.
Repara, repara neste corpo
que é flor no ato de florir
entre barraca e prancha de surf,
luxuosamente flor, gratuitamente flor
ofertada à vista de quem passa
no ato de ver e não colher.



 II

Eis que um frenesi 
ganha este povo,
risca o asfalto da avenida, 

fere o ar.
O Rio toma forma de sambista.
É puro carnaval, loucura mansa,
a reboar no canto de mil bocas,
de dez mil, de trinta mil, 

de cem mil bocas,
no ritual de entrega 

a um deus amigo,
deus veloz que passa 

e deixa rastro de música 
no espaço para o resto do ano.
E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. 

Outra festa se estende
por todo o corpo ardente 

dos subúrbios
até o mármore e o fumé
de sofisticados, 

burgueses edifícios:
uma paixão:
a bola
o drible
o chute
o gol
no estádio-templo que celebra
os nervosos ofícios anuais
do Campeonato.
Cristo, uma estátua? 

Uma presença, do alto, 
não dos astros,
mas do Corcovado, 

bem mais perto
da humana contingência,
preside ao viver geral, 

sem muito esforço,
pois é lei carioca
(ou destino carioca, tanto faz)
misturar tristeza, amor e som,
trabalho, piada, loteria
na mesma concha do momento
que é preciso lamber 

até a última gota de mel 
e nervos, plenamente.
A sensualidade esvoaçante
em caminhos de sombra 

e ao dia claro de colinas 
e angras,no ar tropical 
infunde a essência
de redondas volúpias repartidas.
Em torno de mulher
o sistema de gesto e de vozes
vai-se tecendo. 

E vai-se definindo
a alma do Rio: vê mulher em tudo.
Na curva dos jardins, no talhe esbelto do coqueiro, 

na torre circular,
no perfil do morto 

e no fluir da água,
mulher mulher mulher 

mulher mulher.


 III

Cada cidade tem sua linguagem
nas dobras 

da linguagem transparente.
Pula do cofre da gíria uma riqueza, do Rio apenas, 

de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto, palavras
cintilam por toda parte, num relâmpago, e se apagam. 

Morre na rua a ondulação
do signo irônico.
Já outros vêm saltando 

em profusão.
Este Rio…
Este fingir que nada é sério, nada, nada,
e no fundo guardar o religioso
terror, sacro fervor
que vai de Ogum e Iemanjá 

ao Menino Jesus de Praga,
e no altar barroco ou no terreiro
consagra a mesma vela acesa,
a mesma rosa branca, 

a mesma palma
à Divindade longe.
Este Rio peralta!
Rio dengoso, erótico, fraterno,
aberto ao mundo, 
laranja 
de cinqüenta sabores diferentes 
(alguns amargos, por que não?),
laranja toda em chama, sumarenta de amor.
Repara, repara nas nuvens; 

vão desatando
bandeiras de púrpura e violeta
sobre os montes e o mar.
Anoitece no Rio.
A noite é luz sonhando.
 


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