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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

XXXVI O Guardador de Rebanhos Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)





O guardador de rebanhos
XXXVI

Alberto Caeiro
(Fernando Pessoa)



E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas! ...


Que triste não saber florir!

Ter que pôr verso sobre verso, 
como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está! ...



Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa,
 mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.


Extraido do "Eu profundo e os outros Eus"

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