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sábado, 16 de maio de 2015

AUSÊNCIA - Elen de Moraes K e VINICIUS DE MORAES







Ausência

Rio de janeiro , 1935
Vinicius de Moraes



Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa 
de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença 
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto 
e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser
tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim 
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho 
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne 
como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... Tu irás 
e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos 
e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, 
Porque eu fui o grande íntimo da noite,
Porque eu encostei minha face na face da noite 
e ouvi a tua fala amorosa,
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa 
suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência 
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros 
nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém
porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, 
do vento, do céu, das aves, das estrelas,
Serão a tua voz presente, 
a tua voz ausente, 
a tua voz serenizada.



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