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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

POESIAS E BIOGRAFIA DE CECÍLIA MEIRELLES

Homenagem à 
CECÍLIA MEIRELES
no seu 113º aniversário




Mulher ao espelho


Hoje que seja esta ou aquela, 
pouco me importa. 
Quero apenas parecer bela, 
pois, seja qual for, estou morta. 

Já fui loura, já fui morena, 
já fui Margarida e Beatriz. 
Já fui Maria e Madalena. 
Só não pude ser como quis. 

Que mal faz, esta cor fingida 
do meu cabelo, e do meu rosto, 
se tudo é tinta: o mundo, a vida, 
o contentamento, o desgosto? 

Por fora, serei como queira 
a moda, que me vai matando. 
Que me levem pele e caveira 
ao nada, não me importa quando. 

Mas quem viu, tão dilacerados, 
olhos, braços e sonhos seu 
se morreu pelos seus pecados, 
falará com Deus. 

Falará, coberta de luzes, 
do alto penteado ao rubro artelho. 
Porque uns expiram sobre cruzes, 
outros, buscando-se no espelho.


Discurso


E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água: 
deixa seu ritmo por onde passa. 
Venho de longe e vou para longe: 
mas procurei pelo chão os sinais
do meu caminho
e não vi nada, 
porque as ervas cresceram 
e as serpentes andaram. 
Também procurei no céu 
a indicação de uma trajetória, 
mas houve sempre muitas nuvens. 
E suicidaram-se os operários de Babel. 
Pois aqui estou, cantando. 
Se eu nem sei onde estou, 
como posso esperar 
que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou, 
como posso esperar 
que venha alguém gostar de mim?



Reinvenção


A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva ou não se tem sol,
ou se tem sol ou não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo dinheiro e não compro doce,
ou compro doce e não guardo dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.



Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?



Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



Máquina Breve


O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.



Timidez
Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…
e um dia me acabarei.


Cântico VI


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.



Primeiro Motivo da Rosa


Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, 
que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, 
serás eterna. 
E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho… E frágil.



Marcha


As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.
Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.


Leveza


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.



Inscrição na Areia


O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!
Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?
O meu amor não tem
importância nenhuma.



Noções

Entre mim e mim, 
há vastidões bastantes
para a navegação 
dos meus desejos afligidos.
Descem pela água
minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar,
e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura 
do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito 
das respostas que não se encontram.
Virei-me 
sobre a minha própria experiência, 
e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância
por mares contraditórios,
e este abandono 
para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua
sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo 
do oceano sobre a areia passiva
e inúmera…


Canção


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.



Quarto Motivo da Rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me 
é que vão me lembrando,
por desfolhar-me 
é que não tenho fim.




Metamorfose


Súbito pássaro
dentro dos muros
caído,

pálido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu lábio leva
um outro nome
mandado.

Súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.

Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jamais
e para sempre
perdido

o eco do corpo
no próprio vento
pregado.


Biografia


Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu aos 7 dias do mês de novembro do ano de 1901, na capital do Rio de Janeiro.Foi criada pela avó materna, pois ficou órfã ainda muito nova, com apenas três anos. Forma-se em 1917 pela Escola Normal do Rio de janeiro e torna-se professora primária. Sua estréia como literária acontece com o livro de poemas “Espectros”, em 1919. Contudo, sua aclamação como escritora acontece com a obra Viagem, inspirada em uma viagem a Portugal em 1934 e publicada em 1938, sendo vencedora do prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras no ano seguinte.

No ano de 1922, ainda no início de sua carreira como escritora, Cecília Meireles participa de uma corrente literária chamada de “espiritualista”, pois são poemas de linguagem religiosa, voltados ao catolicismo. Este grupo dedicado à poesia religiosa católica colaborava para as revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Mais tarde, ao afastar-se dessa corrente, Cecília aproxima-se das inspirações neo-simbolistas e escreve seus próximos livros, na seqüência: Nunca mais...e Poemas dos poemas de 1923 e Baladas para El-Rei de 1925.

Pouco antes, em 1922, casa-se com um pintor português, com quem tem três filhas. Em 1935, fica viúva, após o suicídio do marido. Anos depois casa-se novamente com um médico.

A partir de 1930, a professora-poetisa começa a lecionar literatura brasileira em universidades. Na Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), lecionou Literatura Luso-Brasileira. Sua atividade cultural se intensifica a partir de 1934, quando visita Portugal e desenvolve atividades acadêmicas e culturais nas cidades de Lisboa e Coimbra.

Neste mesmo ano, envolta a sua paixão pelo universo infantil, o qual é tema de vários livros da poetisa, funda a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.

Nos próximos anos, de 1940 e 1950, intensifica ainda mais suas atividades literárias fora do país: leciona no Texas, faz conferências no México, recebe prêmio de distinção no Chile, participa de simpósio na Índia, onde recebe título de mérito. Segue os anos fazendo viagens, conferências e ministrando cursos.

Seu contato com outras culturas foi fundamental para sua produção poética.

A poetisa reflete em sua obra variações entre temas: sonhos, fantasia, solidão, padecimento e tempo. Este último se faz presente em muito de seus poemas, enfatizando a transitoriedade das coisas.

O lirismo de Cecília Meireles é refletido em sua linguagem que enfatiza os símbolos, os apelos sensoriais e a musicalidade.

Durante suas pesquisas históricas, a poetisa escreve o livro Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953, o qual é considerado sua obra-prima e trata do episódio da Inconfidência Mineira. Vejamos um trecho:

Pensamento 
Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar 
e a voltar sempre inteira.
         Cecília Meireles
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